17 de junho de 2010

Máfia dos concursos fraudou provas do Cespe e da Esaf

As fraudes identificadas pela Polícia Federal na Operação Tormenta mostram as fragilidades na fiscalização e na aplicação de provas em concursos públicos. O transporte dos cadernos de questões foi indicado pela investigação como o ponto fraco e é tido para as organizadoras como uma das etapas de maior sigilo e segurança. Os casos em que os candidatos tiveram acesso às perguntas antes do dia de aplicação ocorreram a partir do desvio de documentos nessa etapa.

No concurso de agente da PF, dos 53 candidatos que burlaram a segurança, seis só foram identificados quando já estavam no curso de formação, a última das seis etapas de seleção. Nas provas da segunda fase da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), um candidato tentou colar olhando anotações escritas em um dos livros que podiam ser usados para consulta. Ele foi pego em flagrante quando o examinador constatou que se tratavam das respostas das questões. A partir desse caso, outros concorrentes foram identificados, todos no estado de São Paulo.

A organização criminosa que foi desarticulada ontem estaria atuando há pelo menos 16 anos, com controle central em São Paulo, e tentado interferir em, no mínimo, nove concursos, vestibulares e provas de residência médica. Entre os processos seletivos para o serviço público, praticamente todos foram organizados pelo Cespe/UnB. Além das provas da PF e da OAB, a entidade aplicou, entre outras, a da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a da Caixa Econômica Federal e a da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Mas, por enquanto, o diretor de Inteligência da PF, Marcos David Salém, isenta a organizadora de responsabilidade no caso. "Não identificamos qualquer ligação dos acontecimentos com as empresas contratadas para fazer e aplicar as provas", disse.

De acordo com o Cespe, o transporte dos malotes lacrados com os cadernos de questões é feito pela própria empresa e com o acompanhamento dos coordenadores de aplicação de prova da organizadora, que são servidores da Universidade de Brasília. Assim, a empresa explicou que o desvio das provas da PF e da OAB ocorreu "nas dependências da Polícia Rodoviária Federal, e não no momento do transporte". O policial rodoviário citado foi preso ontem, durante a Operação Tormenta. A PRF não foi encontrada para responder sobre o caso.

Danos potenciais
Na tentativa de evitar novas ocorrências, a PF tenta fechar o cerco de quadrilhas como a identificada na operação. "Fazemos auditoria dos nossos concursos, mas estamos disponíveis, se provocados, a ajudar em situações suspeitas em qualquer outra seleção", explicou o delegado Vitor Hugo Rodrigues Alves, responsável pela ação. Para o diretor de Inteligência da PF, Marcos Salém, a prática resulta "em danos potenciais às instituições públicas". "Esses candidatos, quando conseguem entrar (no serviço público), ficam vulneráveis às organizações criminosas", enfatizou.

Na opinião de José Wilson Granjeiro, do Movimento pela Moralização dos Concursos (MMC), a falta de punições específicas para as fraudes incentiva a impunidade. "O mais provável é que nenhuma das pessoas presas permaneçam detidas. Um bom advogado pode usar a argumentação de que falta tipificação do crime e é isso que propomos acabar", defendeu.

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